Rembrandt


Em 2007, a exposição "Rembrandt e a Arte da Gravura" foi levada ao Espaço Cultural da Unifor e escrevi sobre o que vi.

Não importa ignorância sobre a vida de Rembrandt ou desconhecer o modo correto de pronunciar seu nome: as obras (um total de 90 desenhos) são todas – sem exceção – extremamente fortes e belíssimas razões para visitar o Espaço Cultural Unifor. Até para quem nunca ouviu falar do pintor / gravador holandês.
(Nesse caso, um vídeo de cerca de quinze minutos de duração apresenta-o aos estranhos.)

Ao reparar composições e temas de suas gravuras, é impossível não notar a influência de atos encenados e bíblicos, assim como não perceber os inúmeros auto-retratos que o artista produziu no decorrer de sua vida.

Um destes auto-retratos, inclusive, criado no ano de 1634 (e único colorido presente na exposição) é inacreditavelmente real. Os olhos, muito penetrantes, parecem dirigir-se diretamente ao espectador: não somos mais observadores e sim, observados. Essa impressão é, em contrapartida, surreal.

Quem não aprecia religiões a fundo ou sabe apenas citar pequenos trechos de histórias épicas, tem a chance de aprender (com opção de guias – estudantes da própria Unifor) sobre o filho pródigo ou a ressurreição de Lázaro; a rebeldia de Nabucodonosor e seu desejo de erguer a Torre de Babel e a respeito da luta de Davi contra Golias (ou, pelo menos, interessar-se pelos assuntos e procurar – no mínimo – algo no sabe-tudo Google).

O idoso aparenta ter valioso significado nas obras de Rembrandt, com inúmeras participações na mostra. Além disso, os títulos de suas obras são sempre cheios de detalhes, como, por exemplo, "Homem com boina de veludo e um broche" (1637), onde os componentes são todos descritos por palavras.

No entanto, não basta conhecer seus nomes e dizer sobre o que tratam, é preciso penetrar suas idéias. Inevitável, também, atentar para a presença dos incontáveis finos traços no pouco espaço de folha e na maneira bem trabalhada e caprichosa dos desenhos que tornaram Rembrandt famoso.

O pintor usava escuros riscos para enfatizar ou esconder pessoas e momentos, da mesma forma que destacava e iluminava, com a claridade e ausência de rabiscos. Essa dicotomia preto-e-branco é, ao mesmo tempo, sombria e inspiradora – sem contar (meus escolhidos) destaques como "A negra branca" (1630) que evidencia esse aspecto com um desenho límpido ou "A grande noiva judia" (1635), onde abusa do denso, negro e lúgubre, no exagero de cabelos e mantas, transformando uma obra primordialmente triste em excelência (com certeza, uma das mais bonitas da exibição).

Mais graciosas ainda são "A queda do homem" (1638), onde Rembrandt narra por meio de linhas e sombras Adão e Eva experimentando a maçã proibida, junto a uma cobra-dragão especialmente sedutora; e "Cristo aparecendo aos apóstolos" (1656), mostrando a vinda do Senhor aos seus seguidores.

Os armadores árabes, na Idade Média (época onde surgiu a prática de água-forte desenvolvida por Rembrandt), provavelmente se orgulhariam do resultado, aprimoramento e desenvolvimento de sua técnica, ao longo dos anos, para as artes mundiais.

Admirando sua produção, senti um bobo medo de desgastar aqueles desenhos. Claro que o simples ato de examinar e dar tanta atenção às gravuras faz desta idéia tola e impossível. As questões são, por outro lado, inquietantes: 1) como é possível vivenciar – sim, esta é a palavra - imagens tão grandiosas, projetadas em meros pedaços estreitos de um material similar ao papel que hoje existe?; e 2) como foi possível criar tanto?

Nessas horas, lastimo a incapacidade de manter minhas mãos firmes ao começar a traçar linhas – o plano sempre fica bom somente em minha cabeça.

Saí um tanto quanto apressada da exposição, por falta de tempo: telefone tocando, amigos chamando do lado de fora, outra aula para começar. Saí, também, perguntando a mim mesma se realmente teria rasgado alguma obra (pura bobagem!) e com uma enorme vontade de retornar. Com muito tempo livre ou nenhum, vale a pena andar um pouco mais que o costume, rumo ao prédio da Reitoria da universidade e apreciar desenhos de tal magnitude.

Por onde começo?

Já tive inúmeros blogues (sim, em português, é assim que se escreve), principalmente aqueles que nunca mostrei à ninguém, como um segredo. E era realmente dessa forma que os considerava. Textos escritos só para mim, manifestos, desabafos. A maioria das vezes, para não me sobrecarregar de informações e sentimentos.
Depois, eu esquecia cada um. E assim também aconteceu com agendas, diários, cadernos meus.

Algumas semanas atrás, fui deitar com uma ideia fervente na cabeça de criar um novo. Acordei sem saber a razão, de verdade.

Então, pensei em escrever sobre o que adoro: viagens, passeios, cinema, arte, música. Contar histórias vividas em lugares estranhos e imaginar as que virão; discutir sobre artistas e shows; conversar sozinha. É, acho que funciona.

Aqui estou, certo? Só preciso dedicar meu tempo.

Por onde começo?